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Por Andréa Antunes 5 de Outubro de 2026

 

ANE apresenta aos presidenciáveis agenda estratégica

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Neste momento decisivo de transição e planejamento para o próximo ciclo governamental, a Academia Nacional de Engenharia (ANE) encaminhou aos candidatos à Presidência da República um documento estratégico com propostas para o período 2027–2030. A iniciativa busca oferecer pareceres técnicos, isentos e fundamentados aos novos gestores públicos, servindo também como referência para o Congresso Nacional e governos estaduais.

Construído a partir do trabalho colaborativo de acadêmicos e especialistas de sólida trajetória, o documento consolida a visão da ANE estruturada em seus comitês técnicos: Energia, Ensino, Inovação, Logística, Minerais Críticos e Saneamento.

Confira a seguir os principais diagnósticos e as diretrizes recomendadas pela ANE para o desenvolvimento sustentável e a soberania do país:

Ensino: Resgatar a atratividade e modernizar a formação

O Brasil enfrenta uma grave crise na formação de engenheiros. Com mais de 60% de evasão universitária e ingressantes ocupando menos da metade das vagas disponíveis, o país forma cerca de 75 mil profissionais por ano. Em 2025, o indicador brasileiro foi de 357 engenheiros por milhão de habitantes, enquanto países como México (909) e China (966) apresentaram taxas quase 2,5 vezes superiores.

Principais Propostas:

  • Valorização da base e da carreira: Fortalecer o ensino médio público em parceria entre União e estados, além de elevar a remuneração profissional e integrar os serviços de base tecnológica ao Programa Nova Indústria Brasil.
  • Formação prática e modernizada: Reformular a carreira docente para focar em problemas reais, adotar currículos flexíveis baseados em projetos e coibir urgentemente o ensino a distância (EAD) de baixa qualidade na engenharia.
  • Tecnologia na educação: Criar centros multidisciplinares de Inteligência Artificial nas universidades, estimulando o uso ético da IA generativa e a requalificação de profissionais em meio de carreira.

Saneamento: Segurança jurídica e foco no atendimento social

O Marco Legal do Saneamento (Lei nº 14.026/2020) atraiu investimentos privados inéditos. Para a ANE, o caminho rumo à universalização até 2033 exige a continuidade desse modelo, direcionando o foco para o aprimoramento regulatório e para o atendimento às populações vulneráveis.

Principais Propostas:

  • Garantia de regras e governança: Preservar a estabilidade jurídica das concessões e qualificar a escolha dos dirigentes das agências reguladoras (cumprindo as Leis nº 9.986/2000 e nº 13.848/2019).
  • Eficiência nos subsídios: Condicionar repasses federais a resultados e à aplicação das normas da ANA; adotar soluções como vales-água e PPPs para comunidades sem capacidade de pagamento, em vez de repasses a fundo perdido.
  • Resiliência ambiental: Incorporar aos planos de saneamento o manejo de drenagem urbana, a prevenção de enchentes, secas e incêndios, além de incentivar o reflorestamento com espécies nativas em simbiose com as obras de infraestrutura.

Inovação: Soberania de dados e reindustrialização

O domínio global da Inteligência Artificial e de tecnologias avançadas segue concentrado em poucas corporações estrangeiras. Diante da perda de competitividade da indústria nacional e da ausência de infraestrutura computacional própria, o Brasil corre o risco de atuar apenas como consumidor de tecnologias externas.

Principais Propostas:

  • Proteção de dados estratégicos: Tratar acervos nacionais de dados (SUS, Embrapa, biomas) como ativos fundamentais de soberania nacional.
  • Capacitação em IA: Formar mão de obra em IA generativa e focar no uso da inteligência artificial aplicada à pesquisa científica e ao setor produtivo.
  • Reindustrialização regional: Replicar o modelo de sucesso de instituições como Embraer e Embrapa por meio das ICTs regionais.
  • Segurança no campo: Agregar tecnologia digital ao agronegócio e fortalecer a produção nacional de insumos e fertilizantes (como fosfato, potássio e gipsita).

Energia: Transparência tarifária e infraestrutura de rede

O Brasil possui uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, mas a abundância de geração renovável ainda não se converte em tarifas competitivas. Gargalos na transmissão, limitações de armazenamento e desperdício de geração (curtailment) encarecem o sistema e elevam o Custo Brasil.

Principais Propostas:

  • Modicidade tarifária: Trazer transparência às tarifas de energia elétrica e rever encargos e subsídios cruzados (como os da CDE), garantindo que cada custo tenha prazo, pagador e beneficiário definidos.
  • Energia como indutora: Estimular a autoprodução e direcionar energia limpa a custos competitivos para indústrias, mineração, data centers e produção de hidrogênio.
  • Resiliência e armazenamento: Expandir investimentos em redes de transmissão e tecnologias de armazenamento — como hidrelétricas reversíveis — para suportar eventos climáticos e otimizar o uso da rede.

Logística: Reequilíbrio da matriz e conservação de infraestruturas

A matriz de transportes brasileira é desequilibrada: o modo rodoviário move cerca de 65% das cargas e consome 93,9% da energia do setor. As ferrovias somam aproximadamente 30 mil km, número semelhante ao de um século atrás, e 62,1% das rodovias estão em más condições (CNT 2025), o que eleva o custo operacional em até 91,5%. Das 5.827 pontes federais, 727 estão em situação ruim ou crítica, como evidenciou o colapso da Ponte JK sobre o Tocantins em 2024.

Principais Propostas:

  • Reequilíbrio da matriz: Alcançar a meta de transportes até 2040 com ferrovias representando 30% e a cabotagem 20% (incentivada pela BR do Mar).
  • Expansão ferroviária: Ampliar e recuperar a malha ferroviária para carga e passageiros, estimulando a indústria nacional e o investimento privado.
  • Controle de sobrecarga: Restabelecer a pesagem por eixo, revendo a tolerância de 12,5% e adotando tecnologias modernas de pesagem em movimento (Weight-in-Motion - WIM).
  • Recuperação viária: Ampliar os investimentos na conservação de rodovias por meio de recursos públicos (como a PEC nº 1/2021) e Parcerias Público-Privadas (PPPs).
  • Segurança de estruturas: Implementar manutenção preventiva sistemática em pontes e viadutos, com monitoramento digital e atualização de normas de projeto para as cargas reais das vias (padrão TB-45).

Minerais Críticos: Agregação de valor e redução de dependências

Atividades vitais para a transição energética, agronegócio e indústria 4.0 dependem de minerais estratégicos. Embora o país possua jazidas expressivas de diversos minerais, ainda enfrenta vulnerabilidade em outros e atua predominantemente como exportador de matérias-primas brutas.

Principais Propostas: • Processamento local: Criar mecanismos para incentivar o ciclo de processamento dos minerais críticos no país, agregando valor às exportações brasileiras. • Autonomia no agronegócio: Elevar substancialmente a extração e produção de insumos minerais para fertilizantes em solo nacional, reduzindo a dependência externa de insumos agrícolas básicos.

O compromisso da ANE com o futuro do Brasil

Com este documento, a Academia Nacional de Engenharia reafirma sua vocação de ponte entre a ciência aplicada, o setor produtivo e o poder público. A ANE coloca seu corpo técnico à disposição dos gestores públicos para que as propostas apresentadas se desdobrem em políticas de Estado duradouras e transformadoras.

Clique aqui para baixar o documento completo com as propostas dos Comitês Técnicos da ANE