Divulgação/ Coppe/UFRJ

O combate ao plágio, a importância da confiança na sociedade e a necessidade de formar profissionais inovadores foram alguns dos temas destacados pelo professor da Coppe/UFRJ, o AcadÊmico Edson Watanabe, na palestra “Ética na Pesquisa, Criatividade e Inovação”. Devido ao distanciamento social imprescindível ao enfrentamento da Covid-19, a tradicional palestra foi realizada remotamente e transmitida, ao vivo, na segunda-feira, 8 de junho, pela página da Coppe no Facebook.

Tendo grande experiência acumulada no tema de ética e integridade na pesquisa, desde 2007 quando assumiu a diretoria de Assuntos Acadêmicos da Coppe e começou a se deparar com violações de direito autoral, professor Watanabe explicou que, na maioria dos casos, “os plagiadores não têm consciência da ilegalidade e imoralidade que cometem. Há a percepção equivocada de que o que está na internet, o estudante pode copiar e colar”.
“A forma mais fácil de plagiar é simplesmente copiar e colar trechos da obra de outra pessoa. É a forma mais fácil de detectar também. Mas, copiar trocando pronomes, mudando tempo verbal ou substituindo palavras por sinônimos também é plágio, assim como reescrever textos de terceiros, que é mais difícil de detectar, mas também deve ser combatido”, explicou o professor do Programa de Engenharia Elétrica da Coppe.

Watanabe alertou que embora o uso de material sem a devida referência seja percebido por muitos autores como um problema menor, a negligência pode acarretar graves consequências, especialmente causados pelos que não foram referenciados. “Em 2010, descobriram um plágio feito pelo ministro da Defesa alemão Karl-Theodor zu Guttenberg em sua tese de doutorado. Ele era cotado para ser o sucessor da chanceler Angela Merkel, mas após o episódio foi para o ostracismo”, relembra. “Existe um grupo chamado Caçadores de Plágios, que avisa a instituição que conferiu diploma a uma tese com conteúdo plagiado e avisa o pesquisador que foi plagiado. Eles já nos avisaram que uma tese do Programa de Engenharia Civil tinha sido plagiada. É o mesmo grupo que atuou na Alemanha e também na Polônia”.

Professor Watanabe mencionou ainda um editorial publicado pela revista inglesa The Economist, em 2013, How Science goes wrong, o qual alertava que a Ciência estava se tornando menos confiável. Uma proporção crescente de artigos científicos não podia ser replicada, o que sugeriria que suas conclusões são inválidas. Também em 2013, a revista Nature publicou uma reportagem Brazilian citation scheme ousted, que revelou que três publicações se articularam para elevar seus fatores de impacto.

“Despublicar um artigo, após constatar uso indevido de material alheio ou mesmo dados incorretos, não protege totalmente o acadêmico das consequências do plágio ou falta de integridade. Caso você publique 100 artigos e tenha um artigo despublicado, será lembrado por este. “Erros éticos são como tatuagem. Uma vez feitos, é muito difícil apagar””, enfatizou o professor, recomendando o Retraction Watch, site que publica retratações sobre artigos científicos.

Até o começo do mês de junho, havia 15 artigos relativos à Covid-19 retratados (despublicados) listados no Retraction Watch, incluindo o famoso estudo publicado na revista Lancet, que se tornou referência ao desaconselhar o uso da hidroxicloroquina no combate ao novo coronavírus. A Lancet despublicou o artigo, no dia 4 de junho, após três de seus quatro autores se retratarem, devido à impossibilidade de realizar uma auditoria completa e independente dos dados que embasaram o estudo, e assim não poderem endossar a veracidade dos dados primários. “Eu sempre digo que é importante ter dados que sejam auditáveis. Muitas bancas e editoras podem duvidar dos resultados experimentais e querer auditar os resultados”, relembrou Watanabe.

Para evitar que seus alunos passem por problemas dessa natureza, a Coppe criou a Declaração de Não Violação de Direitos Autorais de Terceiros, que deve ser assinada por todos os mestres e doutores formados pela instituição. Professor Watanabe recomendou aos alunos que leiam as Diretrizes de integridade científica e responsabilidade éticas da Coppe/UFRJ, presentes na página de Normas, resoluções e regulamentos no site da Coppe. O professor recomendou também as diretrizes propostas pelo Council of Science Editors (CSE), publicadas em português no site da Associação Brasileira de Editores Científicos (ABEC): Diretrizes do CSE para promover integridade em publicações de periódicos científicos.

“Indisciplina” na inovação e neurobiologia da confiança

Após discorrer sobre ética e integridade na pesquisa, professor Watanabe falou sobre criatividade e inovação. Abordando os quatro conjuntos de conhecimentos, Watanabe afirmou que o conhecimento inovador está em descobrir “aquilo que não sei que não sei”. Segundo o professor, o aluno de doutorado deve ser “indisciplinado” no bom sentido, transitar entre os diferentes saberes e entender que a fronteira do conhecimento é interdisciplinar.

Ecoando as palavras do ex-presidente do CNPq, professor Mário Borges, de que “ciência transforma dinheiro em conhecimento, e inovação transforma conhecimento em dinheiro”, Watanabe explicou que uma inovação não basta ser uma boa ideia, um bom artigo ou mesmo uma patente, mas que deve ser algo “que funcione e o mercado aprove”.

O professor lembrou o economista austríaco Joseph Schumpeter, para o qual a inovação tecnológica seria a força motriz do desenvolvimento econômico, e explicou a escala TRL (Technology Readiness Level), criada pela Nasa para avaliar o amadurecimento tecnológico de produtos inovadores.

Watanabe citou o trem de levitação magnética Maglev-Cobra e o ônibus híbrido elétrico-hidrogênio, como tecnologias criadas na Coppe que já chegaram ao TRL 6, precisando cumprir mais algumas etapas para chegar ao TRL 9 quando a tecnologia está madura o suficiente para amplo uso na sociedade.

O ex-diretor da Coppe frisou ainda que a confiança tem correlação com o desenvolvimento do país, de acordo com a conclusão no artigo Neurobiology of Trust , publicado pelo economista americano Paul Zak, professor da Claremont Graduate University e diretor do Centro de Estudos Neuroeconômicos.

Segundo a pesquisa de Paul Zak, em países muito desenvolvidos como Dinamarca, Noruega, Taiwan e Japão, as pessoas manifestavam muita confiança umas nas outras. O que é fundamental nos negócios, sobretudo em projetos longo prazo. Por sua vez, países em desenvolvimento como Argentina e Uganda apresentaram baixos níveis de confiança. “No Brasil, último da fila, só 2% das pessoas diziam confiar nos outros. Acho que isso pode ter até piorado após a Lava-Jato. A consequência disso é que a falta de confiança leva a um país extremamente regulado, desconfiado e burocratizado, criticou o professor Watanabe.
Fonte: Planeta Coppe