A valorização da engenharia no Brasil

 

“É preciso criar incentivos para que os empresários utilizem a engenharia brasileira em seus empreendimentos, em lugar de importar engenharia pronta”, afirma o Acadêmico

 

Em tempos onde a ciência e a engenharia sofrem com a recessão que afeta o país, mostrar o valor do setor é fulcral para possamos mudar de rota e caminhar no sentido do crescimento. Foi com esse objetivo, e também de debater a colaboração da Academia Nacional de Engenharia (ANE), que o Acadêmico Marcílio Boavista da Cunha redigiu o artigo “Engenharia e Ciência no Brasil”. Uma verdadeira aula sobre a importância da engenharia para o desenvolvimento da sociedade.

No texto, o Acadêmico defende que os setores nacionais que cuidam da “ciência e tecnologia” sejam ampliados para tratar da “ciência e engenharia”, e aponta medidas simples que podem contribuir para a valorização do setor. O assunto foi aprofundado nesta entrevista onde o Acadêmico aborda a questão do enfraquecimento da engenharia no Brasil e sinaliza alguns caminhos a serem seguidos para que possamos melhorar nosso quadro.

Boletim ANE – O que motivou o Sr. a escrever o artigo “Engenharia e Ciência no Brasil”?

Marcílio Boavista da Cunha (MBC) – A motivação do artigo é contribuir para a valorização da engenharia, dos engenheiros e da Academia Nacional de Engenharia (ANE), em sua atuação em benefício da sociedade brasileira. O artigo questiona a situação da engenharia no Brasil; ressalta a necessidade de se cuidar, convenientemente, de todo o processo de geração, preservação, difusão e aplicação do conhecimento; e recorda que a interação entre ciência e engenharia está presente em todas as fases do desenvolvimento da humanidade.

E qual é essa interação entre ciência e engenharia?

MBC – A expressão “Ciência e Engenharia” tem um enorme significado. Ciência e Engenharia se complementam. A obtenção e aplicação de conhecimentos (ciência e engenharia) estão juntas desde os primórdios da humanidade. A evolução da consciência humana em busca de conhecimentos – por fases animistas, místicas, religiosas e filosóficas – foi acompanhada, passo a passo, pela aplicação dos conhecimentos adquiridos – intuitivos e empíricos – na criação de utensílios, ferramentas, armas, abrigo, casas, templos, pirâmides, aquedutos, estradas e muitas outras obras.

Os nomes “cientistas e engenheiros” apareceram bem mais tarde. O método científico e sua sistemática para obter conhecimento, formalizados no início do século XVII, ensejaram o batismo da ciência e dos cientistas. A engenharia e os engenheiros ganharam esses nomes quando foi possível desenvolver novas ferramentas, materiais e conhecimentos práticos, para criar “coisas” destinadas a atender necessidades da sociedade (incluindo os equipamentos e recursos indispensáveis ao avanço da própria ciência).

No texto, o Sr. lembra que nos Estados Unidos, por exemplo, cientista e engenheiros conquistaram a confiança da sociedade e do governo. Por que no Brasil isso ainda não aconteceu? Qual a situação da Engenharia no País hoje? Valorizamos nossa engenharia e nossos engenheiros?

MBC – Creio que é questão de tempo, de amadurecimento da sociedade. O Governo e o Congresso dos Estados Unidos reconhecem as Academias de Ciências, de Engenharia e de Medicina como as Academias Nacionais do País. Recorrem a elas quando precisam de aconselhamento objetivo e independente em matérias que afetam a vida dos americanos. Em nosso País, a Academia Brasileira de Ciências, a Academia Nacional de Engenharia e a Academia Nacional de Medicina ainda não atuam em conjunto e não são reconhecidas nem consultadas pelo Governo e pelo Congresso.

No Brasil, tentamos timidamente valorizar a geração de conhecimento aplicando recursos, minguantes, na área de ciência e tecnologia. A aplicação do conhecimento (engenharia) ainda recebe menos atenção do poder público.

Os escândalos de corrupção prejudicaram a imagem da engenharia?

MBC – Os escândalos de corrupção prejudicaram todos os setores. O enfraquecimento da engenharia, no entanto, tem raízes conjunturais anteriores a esses fatos. No Brasil, a legislação permite que se obtenha projetos, materiais, equipamentos e sistemas no exterior com facilidades que não são estendidas aos produtos da engenharia nacional. Os impostos de importação para vários produtos, como os de defesa e segurança, são praticamente zerados; sobre os produtos nacionais, no entanto, incidem diversos impostos federais, estaduais e municipais. Em muitas situações, os órgãos de governo podem receber financiamentos externos para importar, mas não podem ser financiados internamente para compra de material nacional. Isso apesar da Constituição Federal, em seu Artigo 219, determinar que “o mercado interno integra o patrimônio nacional e será incentivado de modo a viabilizar o desenvolvimento cultural e socioeconômico, o bem-estar da população e a autonomia tecnológica do País”.

Que medidas podem ser adotadas para valorizar a engenharia?

MBC – Medidas relativamente simples seriam renomear o CCT para “Conselho Nacional de Ciência e Engenharia”; renomear as comissões do Senado e da Câmara para “Comissão de Ciência e Engenharia”; e transformar o MCTIC em “Ministério da Ciência e da Engenharia”.

A simples mudança de nomes seria suficiente? Na prática, o que o Sr. acredita que mudaria?

MBC – É certo que nada se altera com uma simples mudança de nomes. O que está sendo proposto é a ampliação do propósito dessas instituições, passando de “Ciência e Tecnologia”, ligada apenas à geração de conhecimento, para “Ciência e Engenharia”, que cobre todo o processo de geração, preservação, difusão e aplicação do conhecimento. As responsabilidades dessas instituições incluiriam o fortalecimento da ciência e da engenharia no Brasil por meio de medidas viabilizadoras.

E que medidas viabilizadoras seriam importantes?

MBC – Seriam medidas como a criação de incentivos para que os empresários utilizem a engenharia brasileira em seus empreendimentos, em lugar de importar engenharia pronta – contribuindo para o desenvolvimento socioeconômico e a autonomia tecnológica do País (Artigo 219 da CF). E estímulos para que os centros, instituições e escritórios de projetos e engenharia dirijam suas demandas de novos conhecimentos para a comunidade nacional de ciência e tecnologia – gerando oportunidades para que essa comunidade melhor focalize os problemas brasileiros. Outras medidas importantes são propostas no artigo.

Qual deve ser a contribuição da ANE nesse processo? Como a Academia pode agir neste sentido?

MBC – A Academia Nacional de Engenharia tem papel fundamental nesse processo. Estatutariamente, ela se dedica ao avanço da engenharia e à sua aplicação em prol dos melhores interesses do Brasil. Coloca-se à disposição da sociedade para tratar e oferecer soluções para as grandes e complexas questões relacionadas com a engenharia. Pode agir por meio da influência pessoal dos Acadêmicos, que são engenheiros e engenheiras reconhecidos pela competência, integridade e ética; pela realização e divulgação de estudos, análises e pareceres; ou por meio de atividades de esclarecimento, como palestras, simpósios, congressos, encontros e exposições.

O Sr. gostaria de deixar alguma mensagem?

MBC –Como última mensagem, lembro que, no momento, para cada 10 mil habitantes, são formados anualmente 10 engenheiros no Japão, 13 na China, 16 na Coréia do Sul e na Finlândia… e apenas dois no Brasil.