Maglev-Cobra completa um ano nos trilhos

Projeto de trem de levitação magnética, que opera dentro da Cidade Universitária da UFRJ, busca certificação para ganhar escala e se transformar em alternativa de transporte em centros urbanos

 

O custo de implementação do veículo, por quilômetro, equivaleria a cerca de 1/3 do custo de um metrô subterrâneo, estimam os pesquisadores

O Maglev-Cobra, nome do trem de levitação magnética desenvolvido na Coppe – o Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), completa no mês de fevereiro um ano de testes, com mais de quatro mil passageiros transportados. As viagens abertas ao público comprovaram a eficiência, confiabilidade e segurança da tecnologia. A certifi cação do veículo é o próximo passo para viabilizar a transferência da tecnologia, a fabricação do produto em escala industrial e a sua colocação no mercado. Desenvolvido por pesquisadores do Laboratório de Aplicações de Supercondutores (Lasup), da Coppe, sob a coordenação do professor Richard Stephan, o Maglev-Cobra é um veículo compacto e leve que se desloca silenciosamente sobre trilhos imantados, sem emitir poluentes. A linha experimental, com 200m de extensão, construída na Cidade Universitária, situada na Ilha do Fundão, Zona Norte da capital fluminense, é alimentada por quatro painéis de energia solar fotovoltaica. Planejado para ser uma alternativa de transporte em centros urbanos, o Maglev-Cobra levita sobre passarelas suspensas que não competem pelo já reduzido espaço das grandes cidades e cuja construção dispensa as caras e impactantes obras civis dos metrôs e trens de superfície convencionais. Além de ser eficiente do ponto de vista ambiental, é economicamente vantajoso. De acordo com seus idealizadores, o custo de implantação por quilômetro é de cerca de 1/3 do valor necessário para implantação de um metrô subterrâneo na mesma extensão. “A proposta é contribuir para reduzir os congestionamentos, substituindo ou complementando os tradicionais meios de transportes como ônibus, automóveis e metrô. Esse período de testes serviu para corrigir e ajustar o veículo, tornando-o mais eficiente e minimizando riscos”, explica Stephan, doutor em Engenharia pela Ruhr-Universidade Bochum, na Alemanha, e professor do Programa de Engenharia Elétrica da Coppe. De todos os projetos de levitação magnética que utilizam o efeito diamagnético dos supercondutores, o projeto da Coppe é aquele que se encontra em estágio mais avançado de implementação, em nível mundial. No momento, o laboratório da Coppe está tentando apoio junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por meio do Fundo Tecnológico (Funtec), para tornar o veículo autônomo, dispensando a presença do condutor a bordo. O projeto já se encontra em avaliação. A verba, no valor de R$ 9 milhões, servirá para a implantação do sistema Automated People Mover (APM), aquisição de novo motor linear e adaptações na estrutura do veículo, com vistas à sua certificação.

A caminho da certificação internacional O trabalho interno prévio, que permitirá posteriormente a certificação por uma instituição independente (poderá ser a alemã TÜV ou a francesa Certifer), é tema da dissertação do aluno de mestrado do Programa de Engenharia Mecânica da Coppe, Felipe Costa. Segundo o mestrando, o objetivo do trabalho é “definir parâmetros para adequar o Maglev às normas vigentes, constatar ineficiências e pontos fracos para aperfeiçoar ainda mais o veículo”. Assim, o Maglev-Cobra está sendo preparado para atingir a exigência de normas internacionais de transportes sobre trilhos, manutenção, segurança e confiabilidade, conceito, análise e aceitação de risco. “São parâmetros com base na RAMS [Reliability, Availability,Maintainability and Safety], editada pela British Standards Institution (BSI), que é a principal referência europeia. Também consideramos as normas brasileiras de segurança do trabalho, normas de software para transmissão e processamento de dados”, explica Felipe Costa. Após implementar os ajustes, o Maglev-Cobra poderá ser certificado por uma instituição técnica, que avaliará o desempenho do veículo de levitação em quesitos como estabilidade, propulsão, velocidade, aceleração e frenagem. “Após receber o aval do órgão ou empresa certificadora, o Maglev-Cobra estará apto a entrar em fase de produção industrial e poderá ser implantado em trajetos mais longos. O projeto da Coppe já está no nível 7 de uma escala de evolução tecnológica utilizada pela Nasa – a TRL, Technology Readiness Level, que vai até o nível 9. Ao atingir a etapa seguinte, o projeto estará pronto para a industrialização”, afirma Stephan.

Produção comercial: impactos na indústria nacional

Atualmente, na linha experimental na Cidade Universitária, o veículo transporta 10 passageiros por viagem e circula a uma velocidade de 10 km/h. No futuro, em escala comercial, poderá conectar módulos extras, de 1,5 metro de comprimento cada, aumentando a capacidade do veículo, que, em percursos mais longos, pode chegar a velocidade de 100 km/h. A expectativa é de que o veículo obtenha a certificação e que em 2020 entre em operação em uma linha de 5 km, na Cidade Universitária, ligando a Estação de BRT –Transporte Rápido por Ônibus, popularmente chamado de BRT, na sigla em inglês – Aroldo Melodia ao Parque Tecnológico, conforme previsto no Plano Diretor da UFRJ. “No futuro, a linha poderá ser expandida, fazendo a conexão entre os aeroportos do Galeão, na Ilha do Governador, e Santos Dumont, no Centro”, planeja o professor. “Na fase de implementação comercial, o projeto terá impactos significativos na indústria nacional, pois tem repercussões em diversos elos da cadeia produtiva, como fábricas de ímãs e supercondutores, e para diversas áreas de pesquisa científica: engenharias mecânica, elétrica, eletrônica, de materiais”, explica. Os testes conduzidos até o momento foram viabilizados com recursos disponibilizados pela FAPERJ, por meio do edital Pensa Rio – Apoio ao Estudo de Temas Relevantes e Estratégicos para o Estado do Rio de Janeiro. “O projeto da Coppe só saiu do papel e tem condições de manter-se graças ao apoio da Fundação. Equipamentos, material de consumo, a recente instalação de ar condicionado que permitirá conforto nas viagens demonstrativas nesse verão, e também a manutenção do Maglev, são pagos com estes recursos”, ressalta Stephan. As viagens demonstrativas são abertas ao público e realizadas às terças-feiras, em dois horários: 11h às 12h e 14h às 15h. Os interessados em testar a tecnologia devem se dirigir à estação do Centro de Tecnologia da UFRJ, que fica no segundo andar do Bloco I-2000 (altura do Bloco H), na Av. Horácio Macedo, 2030, Cidade Universitária.

Pesquisador: Richard Stephan

Instituição: Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Edital: Pensa Rio – Apoio ao Estudo de Temas Relevantes e Estratégicos para o Estado do Rio de Janeiro

 

Fonte: Revista Rio Pesquisa Faperj – Edição 37 – Texto : Bruno Franco