Submarino brasileiro será lançado ao mar em dezembro

Em palestra organizada pela ANE, Almirante de Esquadra Bento Albuquerque apresentou o Programa Nuclear da Marinha e o Programa de Desenvolvimento de Submarinos

 

Almirante de Esquadra Bento Costa Lima Leite de Albuquerque apresentou as novidades do Programa de Submarinos da Marinha

Os avanços do Programa Nuclear da Marinha (PNM) e do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (Prosub) e a importância dessas iniciativas para o desenvolvimento do País foram apresentadas pelo Almirante de Esquadra Bento Costa Lima Leite de Albuquerque, em palestra proferida no dia 24 de abril, no Clube de Engenharia. Organizada pela Academia Nacional de Engenharia (ANE) e pelo Clube de Engenharia a apresentação reuniu autoridades como o Ex-Ministro da Marinha Mauro Cesar Pereira e o Ex-Comandante da Marinha Almirante de Esquadra Júlio Soares de Moura Neto. O Almirante Esquadra Bento Costa Lima Leite de Albuquerque, que chefia a Diretoria Geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha, falou por cerca de uma hora para uma plateia lotada.

Ao falar do Prosub, o Almirante de Esquadra disse que o Brasil está recuperando a sua capacidade de construção de submarinos e considerou normal o atraso de seis meses no lançamento do novo submarino Riachuelo (a previsão inicial era de que ocorresse em julho, mas será feito em dezembro). “Nós saímos praticamente do zero, construímos um novo estaleiro e capacitamos o pessoal. Um atraso de seis meses em um projeto dessa magnitude é considerado irrisório e bastante comum”, explicou.

Ao detalhar o projeto, o Almirante informou que o primeiro modelo de submarino (S-BR), baseado no projeto francês “Scorpene”, foi desenvolvido com transferência de tecnologia francesa do Naval Group (ex-DCNS), em parceria com a Marinha do Brasil e está sendo montado desde fevereiro, no Complexo Naval de Itaguaí, no Rio de Janeiro. O programa prevê a construção de quatro submarinos da classe Riachuelo que serão lançados um a cada 18 meses até 2023. Para o submarino nuclear, a previsão é que esteja concluído em 2028.  Ao falar do Programa Nuclear da Marinha, o Almirante destacou ainda que ele tem como objetivo dar maior segurança à costa brasileira e gerar impactos significativos na economia do país.

Antes de passar a palavra ao palestrante, o presidente do Clube de Engenharia, Pedro Celestino salientou que a Marinha tem tradição de encarar desafios tecnológicos e que esse trabalho teve continuidade em todos os regimes e governos, e deve ser motivo de orgulho para todos os brasileiros.

Visão Geral do Brasil

O Almirante iniciou a palestra apresentando uma visão geral do Brasil. Lembrando que o País está entre os mais extensos do mundo (ocupa a 6ª posição) e possui grandes reservas naturais, destacou algumas características da nossa economia. “Ela é totalmente dependente do comércio, e 95% desse comércio é feito pelo mar. Cerca de 10% da carga mundial passa por portos brasileiros. Temos quase 230 portos”, disse, ressaltando ainda que 93% da produção de petróleo e 75% da produção de gás natural passa pelo mar. “Ou seja, nossa segurança depende de nossa segurança no mar”, afirmou.

Ao situar o Brasil no contexto internacional, o Almirante lembrou que o país é um dos “gigantes do mundo”. “Fazemos parte de um seleto grupo que tem uma das dez maiores populações, um dos dez maiores territórios e uma das dez maiores economias do mundo. Quais são esses países? Estados Unidos, Rússia, Índia, China e, se considerarmos a União Europeia como um bloco de países, o Brasil está lá e é o único desses países que utiliza a energia nuclear somente para fins pacíficos”, observou o Almirante, destacando ainda que os programas da Marinha têm grande contribuição em três aspectos: energia, tecnologia e defesa. Ao afirmar que a energia é a base de desenvolvimento para qualquer país, enfatizou que no Brasil aproximadamente 76%  da matriz energética advém de usinas hidrelétricas, sendo que hoje 52% é utilizado em fase de regimes de chuva e o resto é complementado com combustíveis fósseis. “Apenas 2,2% são provenientes de energia nuclear, o que nos parece um paradoxo para um país que tem a sétima reserva de urânio do mundo. Reserva que poderia prover energia para o país por 100 anos, se tivéssemos uma matriz nuclear”, afirmou o Almirante, complementando: “Nós entendemos que investimento em tecnologia nuclear é um compromisso com as gerações futuras e a diversificação da nossa matriz energética significa segurança também.”

Em relação à tecnologia, o Almirante sublinhou que o programa da Marinha traz inovação, competitividade e desenvolvimento ao país e apresentou dados dos últimos dez anos do programa. Segundo ele, o Prosub movimentou 700 empresas civis nacionais, 18 universidades e institutos de pesquisa, 4.800 empregos diretos e 12.500 empregos indiretos.

No que diz respeito à defesa, o Almirante lembrou o reconhecimento da Amazônia Azul – área vital para o futuro do país em função de suas riquezas e linha de comunicação marítima e citou dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que apontam crescimento de 380% do comércio marítimo até 2030, a migração do centro econômico para as regiões orientais e o aumento da importância do Atlântico Sul em face de suas ligações marítimas. “Isso ampliará o alcance do nosso poder naval, ou seja, teremos que ter condições de atuar além do nosso entorno estratégico”, disse o Almirante, lembrando que isso já vem ocorrendo. “A Marinha está cada vez mais presente na Costa Oeste da África realizando exercícios, orientando e preparando novas marinhas e dando, de certa forma, segurança ao fluxo comercial da região. Somos atores globais”

Programa Nuclear

O Almirante traçou um histórico do Programa de Desenvolvimento de Submarinos da Marinha (Prosub) que começou a operar em 1914 por meio de parcerias com países como Itália, EUA, Reino Unido, Alemanha. Já a origem do Programa do Submarino Nuclear remonta a década de 70 com o Plano Estratégico da Marinha que indicava a necessidade de projetar e construir submarinos de propulsão nuclear. Em 1979 teve início o programa nuclear, em parceria com o Ipen, com o objetivo de dominação do ciclo do combustível e o projeto de reatores. Na década de 80 e 90 foi firmada uma parceria com a Alemanha para a construção de cinco submarinos e transferência de tecnologia. Em 2008 um acordo de parceria estratégica foi assinado com a França possibilitando a construção de quatro submarinos convencionais e um submarino de propulsão nuclear, além da construção de um estaleiro e de uma base naval. “O projeto básico do nosso submarino de propulsão nuclear foi finalizado e certificado pelos franceses em janeiro de 2017 e estamos na fase de detalhamento”, disse.

Atualmente, dois submarinos estão em construção na Unidade de Fabricação de Estruturas Metálicas inaugurada no Complexo Naval de Itaguaí. Ao todo, foram investidos cerca de 5 bilhões de reais em capacitação de técnicos e engenheiros no exterior, além de 480 milhões de reais na Nuclep (Nuclebrás Equipamentos Pesados S/A), indústria de base vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.

Ao falar dos objetivos do programa nuclear brasileiro, o Almirante Bento Albuquerque lembrou o artigo 21 da Constituição Federal que determina que toda atividade nuclear em território nacional será para fins pacíficos. “Além disso, somos sócios-fundadores da Agência Internacional de Energia Atômica (1957) e signatários dos tratados de Tlatelolco, da Antártica e da Zopacas, que tornam o Atlântico Sul e a América Latina livres de armas nucleares”, complementou. “Outro aspecto importante no que diz respeito a salvaguardas nucleares foi a criação da nossa Agência de Segurança Nuclear e Qualidade, em fevereiro passado, composta de professores de notório saber que estão trabalhando conjuntamente com a Comissão Nacional de Energia Nuclear CNEN para o licenciamento de nossas instalações e do nosso submarino”, observou.

“Procuramos mostrar que nossos programas são programas de Estado, que passam pelos governos e por décadas tendo em vista seu longo prazo de execução. A transferência de tecnologia é notável e o índice de nacionalização também é expressivo. Procuramos mostrar que nossos programas são transparentes e têm um viés muito grande no que diz respeito à segurança energética, tecnológica e de defesa do país. Além dos benefícios que trazem para a aplicação pacífica da energia nuclear”, afirmou, citando as diferentes áreas com impacto tecnológico correlacionado, como turbinas a vapor e usinagem de componentes para usinas hidrelétricas.

O Almirante encerrou sua apresentação com uma mensagem, que para ele condensa a visão da Marinha sobre o desenvolvimento nuclear brasileiro: “Buscamos Desenvolvimento! Buscamos um Brasil melhor para as gerações futuras, bem como contribuir para a paz mundial dentro das nossas responsabilidades perante a comunidade internacional”, finalizou.

 

O Almirante de Esquadra entregou uma placa ao presidente da ANE, Francis Bogossian, em reconhecimento ao trabalho da entidade

Pedro Celestino parabenizou o Almirante pela palestra e enfatizou que a energia deste século será a nuclear. O presidente da ANE, Francis Bogossian também parabenizou o Almirante pela apresentação. “O poder civil conhece muito pouco do enorme papel que as forças armadas têm para a sociedade. É preciso divulgar esse trabalho”, afirmou na mesma linha de pensamento do Almirante Mauro Cesar. “Considero que a importância maior é divulgar ao povo brasileiro a honestidade do trabalho desenvolvido. Falta conscientização do povo brasileiro sobre muito do que é feito. É preciso divulgar para todos. Isso é feito por brasileiros que têm amor ao seu país.”

A palestra pode ser assistida aqui