“A qualidade do ensino no Brasil é preocupante em todos os segmentos”, disse reitor

Reitor da USP, Acadêmico Vahan Agopyan, fala sobre a formação do engenheiro

Em junho, reitor fará palestra para Acadêmicos no Rio de Janeiro

Armênio, naturalizado brasileiro, o engenheiro civil e professor Vahan Agopyan assumiu em janeiro a reitoria da Universidade de São Paulo (USP). À frente de uma das maiores universidades do País, a instituição conta com 90 mil alunos e seis mil docentes, o professor tem como objetivos manter a busca contínua da qualidade; aumentar a interação da universidade com a sociedade; e valorizar os recursos humanos da instituição.

E foi sobre estes assuntos que o reitor conversou com a ANE. Nesta entrevista, ele fala sobre a USP, o ensino da Engenharia e sobre o papel do engenheiro no mundo atual. “Sempre insisto que a engenharia não é uma Ciência Exata, na verdade, a engenharia é a aplicação da Ciência Exata. O profissional de engenharia é uma pessoa que sabe tomar decisões na incerteza”, afirma.

Membro da ANE, o engenheiro Vahan Agopyan estará em junho, no Rio de Janeiro, para proferir uma palestra para os Acadêmicos. A palestra será no dia 19 de junho, às 17 horas, na PUC-Rio.

 

O Sr. tem uma relação antiga com a USP. Começou como estudante e ocupou vários cargos na universidade até ocupar o cargo de reitor. Como é sua relação com a instituição?

Minha carreira foi feita dentro da USP. Entrei na universidade em 1970, há 48 anos, e nunca mais me desliguei da instituição. Terminei a graduação em 1974, fiz mestrado, com bolsa da Fapesp, e no meio do mestrado, fui contratado como auxiliar de ensino. Na ocasião, larguei a minha bolsa e virei docente, mas naquela época eram poucas vagas de professor em tempo integral, então dedicava parte do meu tempo à universidade e parte ao trabalho em consultorias. Nesse tempo, concluí o mestrado. A partir de 1990, passei a fazer parte do quadro de professores de tempo integral e de lá para cá só me afastei da universidade duas vezes: quando fui diretor presidente do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) e quando fui coordenador de Ciência e Tecnologia da Secretaria do Desenvolvimento do Estado de São Paulo, mas não deixei de dar aula. Vi toda a modificação da universidade, seu crescimento, suas mudanças.

Por que a USP está entre as melhores universidades do País?

São algumas circunstâncias muito positivas. Primeiro a própria gênese da USP que começou em 1934 como universidade juntando seis escolas profissionais: a Faculdade de Direito (1827), a Escola Politécnica (1893), a Faculdade de Farmácia e Odontologia (1898), a Escola Superior de Agricultura (1901), a Faculdade de Medicina (1912), e o Instituto de Medicina Veterinária (1919). O ano de 1934 foi um período positivo para trazer profissionais de fora do país. A Europa estava no pré-guerra, então os profissionais vieram para o Brasil com toda sua experiência de fazer pesquisa. A USP começou como uma universidade de pesquisa com uma visão moderna e um corpo docente de qualidade que contaminou todas as escolas que faziam parte da universidade.

O segundo fator foi estar no Estado de São Paulo e poder contar com a Fapesp – uma fundação que nunca teve descontinuidade e garantiu um recurso contínuo de apoio à pesquisa. Isso dá ao pesquisador a segurança de planejar seu trabalho e também a possibilidade de ousar fazer pesquisa de ponta e de grande alcance. A Fapesp exerceu um papel fundamental não só para a USP, mas para todas as universidades que estão em São Paulo.

O terceiro fator foi em 1989, logo depois da promulgação da Constituição Brasileira. O Estado resolveu respeitar a Constituição e dar autonomia financeira e administrativa às três universidades estaduais. Com isso, pudemos fazer a gestão de uma forma organizada, planejada e de longo prazo. Mesmo quando passamos por uma crise financeira, a autonomia nos permitiu tomar decisões que nos levaram a superar a crise. Essas três circunstâncias contribuíram para que a USP chegasse à excelência.

Em sua posse, o Sr. Destacou a necessidade da universidade interagir mais com a sociedade. Como a universidade pode fazer essa interação? A sociedade não reconhece o papel da universidade ou a universidade está em um patamar muito distante?

Esse é um tema de discussão em universidades de pesquisa de todo o mundo. A universidade de pesquisa tem um alto custo e por ser cara precisa se mostrar como instituição que contribui para o desenvolvimento da sociedade; precisa mostrar que é uma ferramenta para a transformação da coletividade. Por isso as universidades de pesquisa estão preocupadas em ficar mais próximas das comunidades. Essa interação deve ser mais constante. Não é que a universidade vire as costas para sociedade ou que a sociedade não respeite a universidade, mas falta nós da universidade nos apresentarmos melhor e mostrarmos como a comunidade pode tirar maior proveito de nosso trabalho.

Um assunto que tem merecido a atenção dos Acadêmicos e tem sido debatido em reuniões da entidade é a qualidade do ensino de Engenharia. Como avalia o ensino da engenharia no Brasil?

O ensino passou por vários momentos, inclusive, durante um período mais recente quando tivemos uma falta de empregabilidade ele sofreu muito. De maneira geral, posso dizer que no Brasil temos excelente universidades públicas e privadas. Elas apresentam o mesmo patamar das melhores escolas do mundo. Agora a dúvida que temos – que não é só no Brasil, mas em todo o mundo -, é como formar engenheiros que irão mexer com ferramentas e com produtos que não sabemos quais serão? As mudanças são tão grandes e tão rápidas que ficamos em dúvida sobre como formar. Isso fez com que nas últimas décadas as boas escolas de engenharia optassem por reforçar a formação básica, optassem por reforçar a visão de engenharia para garantir que no futuro esse profissional tenha condições de se adaptar às necessidades que surgirão. Essa é uma tendência das boas escolas que também estão com essa visão de fortalecer a formação básica da ciência da engenharia. Preferem dar essa visão do trabalho do engenheiro e esperar que com essa formação básica sólida o nosso profissional seja um profissional adequado às necessidades do futuro.

Essa visão de engenharia não é uma visão tão tranquila, por isso sempre insisto que a engenharia não é uma Ciência Exata, na verdade, a engenharia é a aplicação da Ciência Exata. O profissional de engenharia é uma pessoa que sabe tomar decisões na incerteza. Somos treinados para isso, medindo inclusive os riscos dessas decisões e por isso são profissionais almejados em várias áreas.  Não fico surpreso quando vejo os egressos da minha escola na área financeira, na área de gestão, etc. Os engenheiros são profissionais que sabem tomar decisões e várias atividades exigem essa capacidade e é isso que queremos para o nosso aluno. Dar essa visão de engenharia, mostrar como ele consegue avaliar o risco de uma decisão que está tomando. O profissional que tem a sólida formação das ciências básicas da engenharia tem capacidade de avaliar os riscos, tomar decisões na incerteza e se adequar às demandas.

Uma preocupação é com o crescimento da oferta de cursos. O receio é a queda na qualidade. Como o sr. vê essa questão?

A qualidade do ensino no Brasil é preocupante em todos os segmentos. Devemos buscar a qualidade e não a quantidade. Com relação ao ensino de engenharia isso me preocupa porque o engenheiro precisa ter um diálogo com a realidade, logo os laboratórios não são apenas para aulas práticas, mas para que ele possa entender os fenômenos com os quais trabalha. Fico preocupado quando vejo cursos de engenharia sem a mínima infraestrutura, pois os gestores acreditam que no futuro o engenheiro conseguirá suprir suas deficiências durante a profissão. É muito arriscado… Fico preocupado porque a pós-graduação é muito regrada no Brasil, mas a graduação tem avaliações generalizadas e acho que é isso que temos que discutir como sociedade.

Quais os seus projetos à frente da reitoria?

Já apresentei para o corpo diretor treze projetos para serem começados, todos com basicamente três eixos: a busca contínua da qualidade, essa é uma obrigação das universidades públicas brasileiras com a sociedade; o aumento da interação com a sociedade, incluindo a interações de nossos alunos – estamos criando projetos para que nossos alunos possam fazer essa interação; e a valorização de nossos recursos humanos –técnico-administrativos, corpo docente e discente.

Para finalizar, o sr. gostaria de acrescentar algo?

A nossa Academia está discutindo os assuntos pertinentes ao interesse e desenvolvimento do Brasil. Temos problemas sérios de energia, de transporte, de educação e a ANE não está se furtando. Ela está no caminho certo.