À Memória de Maurício Medeiros de Alvarenga

 

 

ALVARENGA

“É com muita honra que por sugestão da direção da ANE escrevo estas breves palavras em homenagem à memória do acadêmico Maurício Medeiros de Alvarenga. Atribuo a escolha do meu nome tão somente aos vários anos de convivência que com ele tive na Petrobras e na própria Academia. Refiro-me, portanto, aos períodos em que com ele convivi.

Maurício era chefe-adjunto do Departamento de Manutenção da Refinaria Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, onde fui trabalhar quando ingressei na Petrobras em 1962. Na época, o consumo de combustíveis líquidos no Brasil crescia em ritmo acelerado e era atendido basicamente por apenas duas refinarias: Cubatão, em São Paulo, e Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. A outra refinaria em operação, situada na Bahia, era a mais antiga, mas de capacidade bem menor. Qualquer paralisação da produção em São Paulo ou no Rio de Janeiro, por menor que fosse, tinha o potencial de se transformar em questão de repercussão nacional, com alguns jornais de prontidão para culpar o monopólio estatal.

Outra particularidade, essa interna, consistia no fato de que qualquer problema de produção era quase sempre imputado ao Departamento de Manutenção, onde Maurício desenvolveu uma grande liderança, mormente naqueles conturbados anos de 1963 e 1964, quando as questões políticas se refletiam duramente no ambiente de trabalho. Foi corajoso e extremamente leal à missão de manter sem interrupção os serviços de manutenção, quando sob seu comando foi contornada uma dramática crise decorrente de questões artificiais criadas por lideranças sindicais.

Na cidade do Rio de Janeiro da época conseguir uma linha telefônica era uma façanha. O prazo de atendimento contava-se em anos e quem as possuía era obrigado, pelo valor, a declará-las ao imposto de renda. Pois bem, além da empatia no relacionamento, tive então mais um ponto comum com ele: ter sido também contemplado com uma linha em casa: um presente de grego do empregador que permitia nossa convocação ao trabalho em qualquer dia e a qualquer hora do dia ou da noite pois a produção, como já mencionado, não admitia demora no atendimento a questões não resolvidas pela manutenção do turno.

Em 1969, com o continuado aumento da demanda, a Petrobras sob o comando de Ernesto Geisel, apoiado por Leopoldo Miguez de Mello, aprovou um grande programa de expansão e, para conduzi-lo, constituiu o Grupo Executivo de Obras Prioritárias – GEOP. Tratava-se de projetar e construir um grande conjunto de instalações nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais que compreendia uma refinaria em Paulínia, uma refinaria de óleos lubrificantes no Rio de Janeiro, a duplicação do oleoduto Rio-Belo horizonte, e a duplicação da refinaria de Cubatão. Para chefiar esse grupo foram convocados Orfila Lima dos Santos e Maurício Medeiros de Alvarenga.

Foi opinião generalizada entre os que trabalhavam então na Petrobras, a excelência da obra realizada. Tratava-se enfim de investimentos de elevada importância e grande envergadura, portanto, de enorme responsabilidade.

O Serviço de Engenharia existente na empresa era pequeno e mais voltado para obras civis. As ferramentas de planejamento então usadas eram limitadas, pelo que foi decidido oferecer um curso moderno de planejamento e controle a todos os engenheiros e técnicos deslocados para compor o GEOP. Valho-me do que Maurício registrou em seu curriculum vitae para lembrar o nome do instrutor contratado: Russell Archibald, fundador do Project Management Institute – PMI – e considerado internacionalmente um dos maiores experts em sua especialidade.

Naquele momento foram introduzidas na empresa técnicas modernas de planejamento e controle que elevaram extraordinariamente a capacidade gerencial de um sem número de técnicos e engenheiros. Muito importante, destaco, foi o conceito de PBS Project Breakdown Structure, que permite o planejamento, acompanhamento e controle detalhado de todas as fases dos empreendimentos. Começou então o uso generalizado do PBS, já sob a sigla EAP- Estrutura Analítica do Projeto -, com extraordinário ganho de eficiência para toda a empresa. O prazo de 1000 dias para a execução das obras do GEOP (sim, a unidade de tempo considerada era o dia) e o respectivo orçamento foram substancialmente obedecidos. A qualidade especificada foi obtida. O treinamento da equipe e a confiança nela depositada pela direção da empresa, assim como o entusiasmo gerado pelo desafio, foram fundamentais para o sucesso obtido. Assim como também o foi a participação do Maurício, incansável ao lado de Orfila Lima dos Santos, na liderança de um projeto que se tornou um marco de eficiência na história da Petrobras.

Ao término dos projetos, em 1972, foi criado um novo Serviço de Engenharia – SEGEN – do qual Maurício foi o primeiro chefe. Pode-se considerar o SEGEN como um bom herdeiro do GEOP, cuja trajetória acompanhei de perto como gerente do projeto da refinaria de óleos lubrificantes, com o apoio do acadêmico Marcos Henrique de Castro Oliveira.

Encontramo-nos de novo, anos depois, na Academia Nacional de Engenharia – ANE da qual ele foi um dos primeiros membros, tendo nela ingressado em 1991 e dela participado ativamente com seu grande conhecimento da indústria do petróleo. Um excelente trabalho sobre as perspectivas da indústria do petróleo no Brasil foi escrito em 1998/1999 por Maurício com a importante participação do acadêmico José Fantine.

Sua trajetória de vida representa um grande exemplo, tanto pelo legado material para a empresa que ele ajudou a construir com seu trabalho eficiente e de alto nível, como pela postura ética sempre presente nas ações de que participava como profissional, mas também pelo apreço ao lado humano de todos com quem se relacionava. Nele jamais predominava o individualismo, mas sim o espírito de coletividade.”

 

Fernando A. R. Sandroni       

                                     Rio de Janeiro, agosto de 2017