Ex-ministro defende acordo entre países para incentivar a produção agrícola

 

De acordo com o Acadêmico Roberto Rodrigues, Brasil precisa de uma estratégia nacional articulada para garantir o crescimento do setor agropecuário

 

Para Roberto Rodrigues, somente a segurança alimentar é capaz de garantir a paz mundial

Coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas, o Acadêmico Roberto Rodrigues defende mudanças na política de renda para o produtor como ponto fulcral para o desenvolvimento do setor que carece ainda de investimento em infraestrutura.

Em entrevista ao Boletim ANE, o Acadêmico analisa o setor de agronegócios e fala do desafio brasileiro de aumentar em 40% sua produção de alimentos até 2020. “A falta de investimentos é um desafio sem precedentes e isso pode nos impedir de atingir a meta”, diz de forma assertiva.

Doutor honoris causa pela Universidade Estadual de São Paulo, ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, entre 2003 e 2006, Rodrigues criticou a política para setor do governo PT e tem esperanças com os rumos do novo governo. “Cerca de 40% do comércio agrícola no mundo é resultado de um acordo bilateral entre países.  Esses acordos são instrumentos para aumentar a renda e produzir empregos. O Brasil não tem nenhum acordo. Está ficando à margem. Felizmente, parece que isso vai mudar”. Veja a entrevista:

BOLETIM ANE- Quando foi ministro, o Sr. queria criar novas bases estratégicas para o setor agrícola. Que bases seriam essas?

ROBERTO RODRIGUES – É preciso uma política de renda para o produtor. Criei o seguro rural em 2003, mas falta acabar o projeto. O governo não se interessou. É preciso gerar renda para o produtor, mas a política de renda não evolui. Além disso, é preciso criar e regulamentar o Fundo de Catástrofe, definir o responsável pelo seguro agrícola e capacitar os agricultores sobre as questões operacionais. Outra questão é debater o crédito rural. Um dos problemas no Brasil, é que tudo está pulverizado em diferentes órgãos do governo e isso dificulta a adoção de medidas. É preciso também investir em tecnologia. O Brasil está na ponta da agricultura tropical, mas sem recursos para o desenvolvimento da pesquisa o país perde competitividade. Enquanto ministro, fiz o que estava ao meu alcance. Plantei algumas sementes que espero comecem a florescer.

Como o Sr. avalia o setor de agronegócios no Brasil hoje?

RR – É um setor muito competitivo e essa concorrência se dá por dois fatores fundamentais: a tecnologia tropical – gerada no Brasil, extraordinária -, e pessoas capacitadas para lidar com essa tecnologia. Entre 1990 e 2015 a produção de grãos cresceu mais de 230% enquanto a área plantada cresceu 53%.  A produção aumentou cinco vezes mais, o que mostra que as tecnologias foram incorporadas aumentando a produtividade.  Se fosse a alguns anos atrás, precisaríamos de mais 70 milhões de hectares para colher a safra desse ano. Isso significa que esses 70 milhões de hectares foram preservados. O setor avançou na produção de forma sustentável. Preservamos uma área maior do que a plantada com grãos e isso é recorrente no café, na cana… A produção de frango cresceu 457%, a suína cresce também. Tudo graças a um processo de tecnologia extraordinário. Conquistamos o mercado externo. Em 2000, exportamos US$ 21 bilhões, em 2015, US$ 88 bilhões. Crescemos mesmo durante a crise de 2008 e 2009, então o setor vai bem graças às tecnologias e as pessoas que incorporaram as inovações.  O Brasil hoje é o maior exportador de café, açúcar, frango, soja, carne bovina, tabaco. Estamos bem, mas para nos mantermos assim é preciso investir.

Como o Sr. viu a indicação do Blairo Maggi para o Ministério da Agricultura?

RR – Ele conhece o setor, tem experiência de gestão pública e é próximo ao governo. É um bom nome, mas não adianta colocar Jesus no MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) se não houver vontade política de fazer as coisas acontecerem. Espero que o cenário mude.

Como o Sr. avalia a política para o setor?

RR – Posso dizer que é uma política equivocada. Cerca de 40% do comércio agrícola no mundo é resultado de um acordo bilateral entre países.  Esses acordos são instrumentos para aumentar a renda e produzir empregos. O Brasil não tem nenhum acordo. Está ficando à margem. Não participou dos acordos que foram firmados. Ficamos fora da Transpacífico (TPP) e estamos perdendo mercado. Felizmente, parece que isso vai mudar. O ministro José Serra foi para a Europa estabelecer novas relações e acredito vai mudar esse quadro. Ele está tratando o Itamaraty como instrumento de apoio à economia brasileira, o que deve ser feito. Esse é um papel fundamental para ajudar no crescimento do Brasil.

O que é preciso fazer para aumentar a produtividade agropecuária?

RR  – A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em 2001 elaborou um estudo sobre segurança alimentar que diz que até 2020 os países precisam aumentar 20% sua produção e o Brasil 40%.  Esse percentual para Brasil parte do princípio de que temos terra disponível, tecnologia tropical e gente capacitada.  Na teoria temos tudo para atingir a meta, mas falta uma estratégia nacional articulada. Por exemplo, se produzirmos café no Mato Grosso, ele vai chegar à São Paulo caríssimo porque não há logística, falta estrutura. A falta de investimentos é um desafio sem precedentes e isso pode nos impedir de atingir a meta. É preciso uma política de renda para o agricultor, mudanças na política comercial brasileira, melhorar logística e nossa infraestrutura. Ou seja, ainda há muito a ser feito.

Qual a importância de debater a segurança alimentar?

RR – Ela é capaz de garantir a paz mundial. Esse é o debate do momento. Não se pode pensar em paz em um mundo onde há fome.