Encontro debate o futuro do petróleo, armazenamento de energia e a insegurança do mundo virtual

 

Presidente da ANE, Paulo Augusto Vivacqua destacou a importância de elaborarmos um projeto para o País

 

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Durante o Encontro, o Presidente da ANE destacou a importância de discutir um projeto para o País

 

Com a temática energia e tecnologia, o 2° Encontro Anual da Academia Nacional de Engenharia (II-EAANE), realizado no dia 25 de novembro, debateu algumas questões estratégicas para o desenvolvimento do país. No tópico energia, os especialistas destacaram a importância dos recursos naturais como incentivo ao desenvolvimento tecnológico e as mudanças no mercado de energia a partir do armazenamento; já a mesa tecnologia mostrou os avanços e as perspectivas geradas a partir da inteligência computacional e a vulnerabilidade dos usuários no mundo digital, além de oferecer algumas dicas de segurança.

Ao abrir o encontro, o Presidente da ANE, Paulo Augusto Vivacqua, deu as boas-vindas aos participantes, destacou a importância de se discutir um projeto para o País e valorizar nossos recursos e nossos profissionais. Ele lembrou ainda que as demandas da população cresceram e a engenharia pode e deve contribuir para resolver essas questões. “Possuímos conhecimento suficiente para resolver nossos problemas. Nosso País tem condições de atender a essas reivindicações já que temos grandes recursos naturais, humanos, intelectuais.”

Reiterando a importância de um projeto para o País, Paulo Augusto Vivacqua citou como exemplo o Japão, terceira maior economia do mundo. “Após a Segunda Guerra Mundial, para impedir a colonização econômica, o país traçou um projeto para evitar que empresas estratégicas fossem sufocadas pelo capital estrangeiro e investiu na educação para formar estudantes competentes para uma sociedade industrial avançada”, lembrou.

A crise ética que assola o País e o elevado índice de corrupção também foram mencionados pelo Presidente da ANE como aspectos que impedem o crescimento, mas apesar dos problemas, Paulo Augusto Vivacqua se mostrou otimista em relação ao futuro e destacou que o objetivo da Academia é tornar o conhecimento de nossos profissionais a base da ação do governo a partir da proposição de projetos para o país. “Essa é nossa missão”, afirmou Paulo Augusto Vivacqua dando início às palestras.

O PETRÓLEO E SUAS POSSIBILIDADES

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Os Acadêmicos Marcelo Gattass , Acher Mossé e Guilherme Estrella

Com a mediação do Acadêmico Acher Mossé, a primeira mesa abordou as possibilidades brasileiras a partir da exploração do petróleo e destacou a importância da parceria público-privada para o estímulo e o desenvolvimento de tecnologia de ponta. “É preciso entender que no mundo todo, grandes empresas têm grandes parceiros em todas as atividades complementares. Aqui, essa não é uma visão correta”, lamentou o Acadêmico Marcelo Gattass, primeiro palestrante do dia.

Diretor do Instituto Tecgraf/PUC-Rio, o Acadêmico Marcello Gattass apresentou a palestra “O Petróleo e o Desenvolvimento Tecnológico Brasileiro – um estudo de caso”  e relatou as experiências do instituto para mostrar a importância da parceria no incentivo à pesquisa. O engenheiro apresentou alguns projetos, citou a produção acadêmica realizada no Tecgraf/PUC-Rio e falou sobre os novos desafios. “Desde 2011 vivemos uma fase que não conheço. Estamos tentando achar um outro modelo nesse país conturbado que estamos vivendo. Estamos expandindo a atuação, entrando na área de treinamento militar, medicina e entretenimento. A experiência do instituto é apenas uma, mas o importante é mostrar que somos capazes, podemos desenvolver produtos de alta tecnologia e encontrar soluções para nossos problemas”, afirmou.

Em um tom mais informal, o Acadêmico Guilherme Estrella apresentou a palestra “O Pré-Sal e o Desenvolvimento Industrial Brasileiro” onde defendeu a importância dos recursos estratégicos para a soberania nacional e destacou a relevância de políticas neste sentido para que o Brasil possa ingressar como uma nação forte no mercado global. Ex-diretor da Petrobras, o geólogo fez duras críticas ao processo de privatização da empresa e lamentou a situação em que o país se encontra: “O Brasil passa por grandes transformações e essas transformações estão tirando da sociedade brasileira o controle do país”, disse.

Ao afirmar que energia é um ponto central e estratégico para os grandes países, o Acadêmico Guilherme Estrella lembrou que o Brasil tem as duas maiores províncias minerais do mundo, em Carajás e Minas Gerais. Eles destacou ainda que o país produz na Amazônia 20% do oxigênio do planeta e tem o maior aquífero do mundo. A Amazônia Azul também foi citada pelo engenheiro como mais um exemplo do grande potencial do Brasil.

Mas a realidade energética do país, contrasta com a riqueza de seus recursos naturais, como mostrou o Acadêmico ao citar a posição do Brasil no ranking de países pelo consumo per capita de energia elétrica: 72º lugar. “Viemos de uma industrialização capenga, tardia, com base nas firmas privadas de construção civil. Consumo de energia é referência de medição de qualidade de vida. Temos um consumo menor do que a Argentina, a Turquia, a Venezuela, Portugal e México. Há 60 milhões de pessoas que vivem com um padrão de vida extremamente baixo em relação aos países europeus menos conceituados em termos de desenvolvimento”, observou, ressaltando que a disputa pelo petróleo está relacionada à soberania energética das nações.

“O petróleo, o gás natural e o carvão permitem fazer estimativas do que será produzido de energia nos próximos 15, 20 até 50 anos. Desenvolvimento nacional não é operar máquinas da mais alta produtividade, mas sim operar máquinas produzidas e desenvolvidas pela ciência e pela tecnologia brasileira, ainda que não sejam da mais alta tecnologia. Nossa inserção no projeto globalizante deve ser essa, um desenvolvimento nacional soberano, mas isso depende de ação política do governo”, comentou.

ARMAZENAMENTO DE ENERGIA

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Eduardo Serra, Carlos Brandão, Acher Mossé e Jerzy Lepeki abordaram o tema armazenamento de energia

Antes do início das palestras sobre Armazenamento de Energia, o Acadêmico Jerzy Lepecki, coordenador do Comitê de Energia da ANE, fez uma breve apresentação do Comitê, criado logo após a fundação da entidade, em 1991, e citou alguns dos trabalhos desenvolvidos, como os estudos sobre a reforma no setor de energia elétrica no Brasil e energia solar, entre outros.

O Acadêmico Eduardo Serra, da ES+PS Consultoria, apresentou o estudo “Armazenamento de Energia: Situação Atual, Perspectivas, Recomendações” elaborado pelo Comité de Energia. Ele mostrou as tecnologias de armazenamento de energia, suas aplicações e apontou a necessidade de se estabelecer regras para o setor. “Ainda não há uma regulação, mas ela vai evoluir na medida em que o armazenamento for ocupando mais espaço no mercado”, avaliou.

Algumas medidas foram apontadas pelo estudo como necessárias para o desenvolvimento do setor. Entre elas: a necessidade de reexaminar a tendência predominante de construção de usinas hidrelétricas a fio d’água; a retomada dos estudos de viabilidade técnico econômica para a implantação de usinas hidrelétricas reversíveis (UHR); o desenvolvimento da cadeia industrial para as aplicações de armazenamento de energia; e o incentivo a projetos de demonstração relativos às tecnologias de armazenamento ainda em estágio inicial de desenvolvimento.

Ao encerrar sua apresentação, o Acadêmico Eduardo Serra mostrou que as perspectivas são positivas. “Com tantas tecnologias, tantas aplicações não resta dúvida de que existem diversas oportunidades para as empresas neste setor”, finalizou.

Ao iniciar a palestra “Oportunidades e Desenvolvimento de Tecnologias para o Sistema Elétrico Brasileiro”, Carlos Brandão, presidente da Associação Brasileira de Armazenamento e Qualidade de Energia (Abaque), destacou a importância do desenvolvimento tecnológico. “Vivemos uma nova forma de colonialismo que é a subjugação cultural e tecnológica de povos. Não é preciso invadir terras para dominar; subjugar um povo tecnologicamente ficou muito mais fácil”.

Em sua apresentação, Carlos Eduardo Brandão chamou atenção para a atuação dos movimentos sociais na construção de um novo modelo de distribuição da energia elétrica, para as mudanças que vêm ocorrendo pelo mundo e para a situação do Brasil neste contexto. “Nós, que em algum momento fomos parte da tomada de decisão em tecnologia em várias etapas de energia, estamos vendo esse mundo caminhar e não estamos participando. Enquanto ainda estamos discutindo, o armazenamento de energia vai evoluindo em termos de projeto”, criticou.

Carlos Eduardo Brandão analisou também a questão regulatória, o custo da energia, a situação das distribuidoras – que, segundo ele, não têm recursos para investir – e apontou o armazenamento de energia como alternativa. “A distribuidora não tem capacidade de investimento; está cheia de problemas. Por outro lado, a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) deseja que ela atinja uma qualidade de serviços que por meios convencionais não vai conseguir. Outro ponto é que a Aneel não quer colocar o custo na conta do consumidor. Então, o armazenamento é uma das poucas alternativas que temos para postergar investimento e resolver os problemas de qualidade no sistema”, afirmou.

Ele mencionou também alguns entraves para o crescimento do setor como o custo alto e a carência de financiamento de longo prazo para tecnologias sustentáveis. Da mesma forma que o Acadêmico Eduardo Serra, o engenheiro Carlos Brandão encerrou sua apresentação com perspectivas positivas. “A escala de produção em armazenamento de energia usando bateria exige tanta tecnologia e serviço em engenharia que temos uma cadeia de valor a ser criada com grande potencial de emprego para muitos engenheiros e para muitas empresas. Esperamos superar os desafios regulatórios, dar oportunidades para novos entrantes e desenvolver essa cadeia nacional”, concluiu.

INTELIGÊNCIA COMPUTACIONAL

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Os professores Luiz Calôba, José Roberto Boisson de Marca e José Seixas

Após o almoço teve início a mesa tecnologia, mediada pelo Acadêmico José Roberto Boisson de Marca, com a apresentação do Acadêmico Luiz Calôba e do professor José Manoel de Seixas, ambos da Coppe/UFRJ. Os especialistas fizeram uma abordagem técnica sobre inteligência computacional.

O Acadêmico Luiz Calôba explicou o que é inteligência computacional e suas aplicações. “Existem duas linhas quando se fala em inteligência computacional: a linha cognitiva –conhecida como inteligência artificial -, e a linha conexionista – redes neurais – cujo objetivo é tentar fazer com que o computador processe a informação da mesma forma que o homem e os animais fazem”, explicou.

O Acadêmico esclareceu como funcionam as duas linhas e suas diferenças e salientou que apesar das redes neurais terem a capacidade de modelar sistemas e fenômenos que não somos capazes de modelar, de terem potencial para aprender sozinhas e serem capazes de generalizar, não são a panaceia universal. “É bom para uns casos e não para outros. Devem ser usadas quando não há fórmulas precisas”, ressaltou. O professor José Manuel de Seixas apresentou os métodos recentes da inteligência computacional e discorreu sobre algumas de suas aplicações.

SEGURANÇA CIBERNÉTICA

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Vanessa Fonseca e Cristine Hoepers abordaram os riscos na internet

Segurança Cibernética foi o tema da última mesa, onde os especialistas apresentaram um panorama dos crimes cibernéticos e apontaram a falta de segurança no desenvolvimento de programas, como um dos grandes problemas do mundo digital. Eles pontuaram também a necessidade de exigir maior responsabilidade das empresas de softwares com o quesito segurança para que eles possam resistir a ataques mal-intencionados.

A advogada Vanessa Fonseca, diretora da Unidade de Combate a Crimes Cibernéticos da Microsoft Brasil, iniciou o debate sobre o tema lembrando que o crime cibernético está presente em todos os lugares, atinge a todos e que há uma indústria de malware (programa malicioso com o objetivo de causar danos a dados, dispositivos ou pessoas). “Estamos à mercê desses crimes, as organizações criminosas são altamente organizadas. Na dark web encontramos a comercialização de malwares, armas e outros produtos ilegais”.

A especialista explicou como as máquinas são infectadas, como os vírus agem e citou algumas operações de combate a crimes cibernéticos. Ela encerrou com algumas dicas para os usuários. “O uso de wi-fi público deve ser evitado, assim como o pen drive exige um cuidado redobrado. E-mail também é um grande propagador de vírus. É preciso confirmar o endereço todo e não apenas o nome inicial antes de abrir qualquer mensagem ou anexo. Essas dicas não vão blindar, não existe uma ferramenta ou solução, mas aumentam o nível de proteção, pelo menos no uso doméstico”, recomendou Vanessa Fonseca.

Com a palestra “Segurança na Sociedade Digital: Novos Desafios, Velhos Problemas”, Cristine Hoepers, gerente geral do Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança no Brasil (CERT.br), assinalou a necessidade de refletirmos sobre a digitalização do mundo. “Estamos criando uma sociedade muito propícia para o crime organizado. Por que temos que conectar tudo na internet? Aqueles que colocam tudo conectado à rede têm noção do risco?”, questionou.

No mundo onde o controle remoto é cada vez mais realidade, onde lâmpadas e tomadas podem ser controladas via celular, brinquedos interagem com as crianças, câmeras de segurança estão em quase todos os lugares e tudo parece tornar a vida mais prática e segura, ela alertou para a insegurança presente nestes sistemas. “Todos os dispositivos de automação conversam entre si via um protocolo inseguro. As empresas, por praticidade, custo e ingenuidade, estão criando um mundo com o qual será difícil lidarmos daqui para frente. Temos exemplos de ataques por meio de lâmpadas, de brinquedos e câmeras de segurança”, disse Cristine Hoepers, cobrando uma responsabilidade maior dos fabricantes em relação à segurança dos programas.

“A preocupação com segurança é zero. O fabricante não acha que deve cuidar da segurança. Então, vemos hoje problemas muito velhos. É preciso entender que a segurança deve ser incluída na análise de risco”, destacou. A facilidade com que os programas são atacados também foi lembrada por Cristine Hoepers que citou exemplos como o de um hospital que teve todo o sistema elétrico comprometido em função de um ataque cibernético.

Para tornar o cenário mais seguro, ela destacou a importância de haver uma preocupação com a segurança na fase do desenvolvimento dos programas. Além disso, criticou o uso de protocolos obsoletos e defendeu o uso de práticas de desenvolvimento seguro. “É preciso planejar segurança em larga escala”.

As duas últimas palestras foram realizadas via videoconferência. O engenheiro Roberto Gallo, CEO da Kryptus Empresa Estratégica de Defesa, apresentou a palestra “A Era da Inteligência Cibernética: Como Criar um Ambiente Digital mais Seguro”. Definindo cibernética como a ciência das comunicações e do controle de máquinas e seres-vivos, Roberto Gallo ressaltou as mudanças geradas pela tecnologia na área da computação. “Estamos saindo de um mundo onde a informática cuidava quase que estritamente de ativos da informação para um mundo onde os sistemas têm interações com os sistemas físicos”, disse.

Ao lembrar que estamos em um mundo cada vez mais conectado, com capacidade de sensoriamento e atuação nos mais variados domínios, Roberto Gallo frisou os riscos. ““Hoje um ataque no ambiente cibernético tem a capacidade de danos cinéticos, ou seja, oferece risco de vida às pessoas”, alertou o especialista.

Endossando a fala de Cristine Hoepers, Roberto Gallo apontou a necessidade de pensar em segurança durante o desenvolvimento dos programas. “Corrigir um defeito depois que um sistema está em operação custa muito mais do que no momento em que ele está sendo desenvolvido. Quanto mais cedo você procurar resolver a questão de segurança, mais barato fica o sistema durante o seu ciclo de vida e menos defeitos ele vai apresentar”, disse o especialista, encerrando com uma mensagem aos engenheiros: “É preciso levar em conta o mundo cibernético porque hoje tudo é conectado e a maneira de resolver questões de segurança não é depois, mas durante a engenharia do próprio sistema. Para isso é necessário ter método, know-how e ferramenta adequada”.

James F. Kurose, da National Science Foundation (NSF/USA), último palestrante do encontro, apresentou a National Science Foundation, abordou a importância de investir na segurança e falou da recente parceria entre o Brasil e os Estados Unidos para o desenvolvimento de pesquisas em segurança cibernética.

 

Todas as apresentações podem ser conferidas na íntegra no canal da ANE no youtube.