Ciência, Tecnologia e Inovação em debate no CBPF

Acadêmico Fernando Sandroni abordou os caminhos da C.T.I. no Brasil

SANDRONI
O acadêmico Fernando Sandroni abordou o tema do desenvolvimento da pesquisa e inovação no Brasil a partir da perspectiva da demanda,

Em sua palestra “Ciência, Tecnologia e Inovação – considerações sobre nossa história recente”, no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), o Acadêmico Fernando Sandroni abordou o tema do desenvolvimento da pesquisa e inovação no Brasil a partir da perspectiva da demanda, destacando de início o momento difícil que o setor enfrenta com o contingenciamento dos orçamentos públicos e a redução dos investimentos das empresas em atividades inovativas refletida nos dados da PINTEC, pesquisa realizada pelo do IBGE.

O pano de fundo inicial da exposição foi a organização da pesquisa cientifico-tecnológica nos EUA durante e depois da 2ª guerra mundial, chefiada por um engenheiro, Vannevar Bush, que se tornou famoso em seu país por esse trabalho que tem como uma de suas várias consequências a formulação do chamado “modelo linear” ligando a ciência básica à inovação. O impacto do desenvolvimento da ciência e da tecnologia no pós guerra, com destaque para a física nuclear, reflete-se no Brasil, como mostra Sandroni, pela criação de vários institutos como o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas- CBPF (1949), o Instituto Tecnológico da Aeronáutica – ITA (1950), o Conselho Nacional de Pesquisas – CNPq (1951) e o Instituto de Matemática Pura e Aplicada – IMPA (1951) a que se ligam inúmeros nomes hoje reverenciados como por exemplo Cesar Lattes.

Foi mostrada também a contestação do modelo linear como forma única de ligação entre ciência e inovação com o aparecimento de fatos e fundamentos que ensejaram o formulação do modelo bi-dimensional, indicando a importância das considerações de uso como fator de impulso à inovação. Esses fundamentos, segundo Sandroni, presidiram a criação no Brasil de diversos institutos e entidades como a COPPE (1965) ligada à UFRJ, FINEP (1967), EMBRAER (1969) e a EMBRAPA (1973).

“Nessa época, assim como no pós guerra, o Brasil estava ligado ao que acontecia no mundo e isso foi uma grande conquista”, afirmou, citando o nome de personalidades que contribuíram para o desenvolvimento da pesquisa tecnológica no país, como José Pelúcio Ferreira, Leopoldo Miguez de Mello, Paulo Belotti, Otto Vicente Perroni e Waldimir Pirró e Longo, entre outros como Kurt Politzer. “Esses homens fizeram parte do pensamento desenvolvimentista no Brasil.”

Mas a partir da década de 1980 a história da pesquisa no país começou a mudar, como lembra o acadêmico. Segundo ele, muitos observadores consideram que neste período houve um certo “descolamento” entre o que acontecia no Brasil e o que ocorria no mundo em decorrência de crises políticas e econômicas que atingiram não só as atividades de ensino e pesquisa mas a economia como um todo. “Muita coisa foi paralisada. Nos anos 90, por exemplo, cerca de 1.500 produções químicas foram interrompidas no Brasil”, citou a título de exemplo. Na década seguinte, o engenheiro lembrou que houve uma pequena retomada no investimento, mas a partir de 2006 iniciou-se um processo de queda na taxa de investimentos em atividades inovativas, que havia chegado a 12,6% ao ano no biênio 2004/2005 como mostrado nos dados da PINTEC.

Mais recentemente houve um agravamento desse quadro uma vez que a crise financeira tem levado a cortes nos orçamentos públicos em pesquisa mas também nos investimentos das empresas. Há que reverter esse quadro mas para isso é necessário que além da estabilização da economia e a reversão de expectativas em relação ao crescimento econômico é necessário um novo pacto entre governo, instituições científico/tecnológicas, academias, comunidade empresarial.

“A excelência deve ser a direção norteadora das propostas de ação e transformação. Os fundos públicos são parte inerente do processo de desenvolvimento científico, tecnológico e de inovação; sendo limitados, as ações necessárias para garanti-los e sua aplicação devem se pautar pelos critérios de oportunidade e de excelência”, concluiu.

A palestra pode ser assistida na íntegra aqui.