Audiência Pública debate mudanças no currículo  de Engenharia

Mais de 200 pessoas participaram de encontro no Rio de Janeiro

Para o Acadêmico Paulo Alcântara, é importante que os cursos de Engenharia incluam, em seu cerne, três culturas: formação continuada, empreendedorismo e inovação.

Cerca de 250 pessoas participaram, no último dia 21 de novembro, da Audiência Pública sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais da Engenharia, realizada no Clube de Engenharia. Representantes de diversas entidades e escolas de engenharia de todo o país estiveram presentes no encontro, que ocorreu no Rio de Janeiro, para discutir a proposta apresentada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE).

A omissão de um currículo básico, o curto prazo disponibilizado pelo CNE para a consulta pública e  a possibilidade de se aprovar um curso de Engenharia sem disciplinas de Matemática, Física e  Química,  foram duramente criticadas. A perspectiva de mestres, especialistas e profissionais não acadêmicos de “notória competência” se tornarem professores, foi apontada como uma “ingerência na autonomia acadêmica e administrativa das universidades e os problemas gerados por um ensino médio deficitário também foram lembrados pelos participantes, que deixaram claro a necessidade de ampliar o debate sobre as diretrizes.

A Audiência Pública foi aberta pelo presidente do Clube de Engenharia, Pedro Celestino, que mostrou sua preocupação com a qualidade do ensino e evidenciou sua preocupação com dois aspectos: a proliferação de cursos a distância e a redução da carga horária mínima. Presidente da Academia Nacional de Engenharia, Francis Bogossian defendeu a formação de uma comissão com representantes de universidades, entidades de classe e empresas para debater a questão. “É necessário ouvir os professores, que formam os engenheiros, e os empresários, que empregam os engenheiros, para analisarmos a questão da formação”, sugeriu Bogossian.

Presidente da Câmara de Ensino Superior do CNE, o professor Antônio Freitas, relator da comissão que analisa a proposta, destacou a necessidade da reforma diante do cenário atual. “Temos mais de 6 mil cursos de engenharia, mas apesar disso, estamos raquíticos no que tange o número de engenheiros por habitante”, frisou, lembrando ainda que no Brasil, o número de patentes e inovações está diminuindo. Ainda de acordo com o Antônio Freitas a diretrizes são apenas sugestões e as universidades terão liberdade para organizar seus cursos.

Integrante da Comissão de Educação do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Minas Gerais (CREA-MG), Bernardo Abraão disse que foi “surpreendido” com as novas diretrizes em julho e que a entidade não foi chamada para conversar sobre as mudanças e criticou a retirada de disciplinas essenciais. “Fizemos um documento com sugestões e nada foi modificado. Todos os argumentos favoráveis à proposta são fracos. Falar de evasão é nivelar por baixo e aceitar aluno não capacitado para o curso. Não houve acatamento de nenhuma sugestão. Já estava tudo fechado”.

A professora Vera Lúcia Franco, da Universidade Federal de Uberlândia, criticou a falta de investimento na Educação Básica e destacou a importância de uma articulação dos Crea’s, e do Confea com o CNE. O professor Marcos Alves da Universidade Federal de Santa Catarina, disse que as diretrizes são muito subjetivas e mostrou-se preocupado com o perfil do egresso apresentado no documento. “O ponto central deve ser o que deve ser dado de base para os alunos. A inovação deve vir no fim do curso”, pontuou.

O professor Paulo Alcântara Gomes, ex-presidente da ANE e ex-reitor da UFRJ, que preside a comissão mista do Clube de Engenharia e ANE para estudar o tema destacou que a proposta tem avanços quando prega uma flexibilização da estrutura curricular, mas apresenta retrocessos ao não referenciar as matérias de formação básica, formação profissional geral e formação profissional específica. “Essa ausência de referências pode gerar problemas extremamente graves. Não se trata de um currículo mínimo, mas de conteúdos que devem fazer parte da estrutura curricular considerada razoável para formar um engenheiro de qualidade”, disse.

Paulo Alcântara salientou ainda o alto índice de evasão dos cursos de Engenharia. “Em parte, a evasão nos cursos se dá por um ciclo básico em que não há muita ligação com a estrutura dos cursos profissionais, e isso é extremamente perigoso. O estudante de Medicina já no primeiro ano está em contato com aquilo que ele vai tratar por toda a vida. Os ciclos básicos da Engenharia são herméticos e desligados do ciclo profissional”, afirmou. Para o professor, é importante que os cursos de Engenharia incluam, em seu cerne, três culturas: formação continuada, empreendedorismo e inovação. Não se trata de disciplinas, mas de referenciais que devem estar presentes ao longo de todo o curso, preparando o profissional para os desafios da realidade.

“Esperamos que esta reunião tenha mostrado ao Conselho Nacional de Educação que é preciso mais tempo para fazer a sintonia fina da proposta com o que aqui foi discutido”, disse o presidente do Clube de Engenharia, Pedro Celestino, antes de encerrar a Audiência Pública. O professor Antônio Freitas explicou que tudo o que for possível será aproveitado, mas o processo não tem prazo definido. “Tem boas contribuições que vão ser aproveitadas. Vai fechar quando estiver pronto”.

Leia aqui o documento do Ministério da Educação com as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação em Engenharia propostas pelo Conselho Nacional de Educação.

A Audiência Pública pode ser assistida na íntegra no canal do Youtube do CREA-RJ. Clique aqui para acompanhar o período da manhã (Parte 1) e clique aqui para o período da tarde (Parte 2).

 

 

Vanderli Fava apresentou cenário da Engenharia no Brasil

O professor Vanderli traçou um panorama do ensino da engenharia no Brasil e disse que a situação é preocupante

 

Antes do início da Audiência Pública, o presidente da Associação Brasileira de Educação em Engenharia (Abenge) e professor titular da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Vanderli Fava Oliveira, traçou um breve perfil do ensino de Engenharia no Brasil. Ele apresentou dados do Ministério da Educação e do Inep e mostrou um cenário preocupante. De acordo com os dados, atualmente o país conta com 6.106 cursos, sendo 5.816 presenciais e 290 a distância. “Estimativas apontam que para cada 1000 candidatos no vestibular, 175 ingressam nas universidades e apenas 95 concluem”, relatou.

O Brasil está nos últimos lugares do ranking de países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) de quantidade de engenheiros por 10 mil habitantes: apenas 4,8 profissionais em 2016, cerca de um quinto de países como Coreia, Rússia, Finlândia e Áustria (20 engenheiros/10 mil habitantes). E isso já considerando o aumento expressivo no número de cursos nas universidades principalmente a partir do início dos anos 2000. De menos de mil cursos no final dos anos 1990, o país passou para cerca de 5,8 mil em novembro de 2018, segundo dados do Ministério da Educação (MEC). Das quase 1,4 milhões de vagas oferecidas nas universidades pública e privadas, no entanto, 566,5 mil são de cursos a distância (EAD), quase em sua totalidade (563,4 mil) nas instituições privadas.

Ele lembrou ainda que apesar do aumento na oferta de vaga, a evasão nos cursos é preocupante. De acordo com dados do MEC, cerca de 54,84% dos estudantes abandonam o curso nos períodos iniciais. “Não há uma causa para esse percentual alto, são diversas variáveis, mas precisamos pensar sobre isso”, analisou, destacando que no exterior, as crianças são estimuladas desde a pré-escola a despertar para a área de Engenharia. Vanderli Fava encerrou lembrando que o panorama não é dos melhores e por isso é fundamental que as entidades de reúnam e se unam para debater a questão.

 

Entenda a polêmica

No primeiro semestre de 2018, o Conselho Nacional de Educação (CNE) propôs algumas mudanças nas diretrizes curriculares das graduações de Engenharia do país, com o objetivo de tornar os cursos mais atrativos e com maior número de atividades práticas, organização mais flexível e focada em inovação. De acordo com o CNE, com os dois primeiros anos dos cursos focados em disciplinas comuns a todas as engenharias, como cálculo e física, o aluno se sente desmotivado e, com isso, aumenta a evasão.

A proposta, elaborada com a ajuda da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e da Associação Brasileira de Educação em Engenharia (Abrenge), preocupa entidades acadêmica, científica, tecnológica e de inovação, representadas por 18 entidades nacionais, entre elas, a Academia Nacional de Engenharia (ANE) e o Clube de Engenharia que formaram um comissão para debater o assunto.

As entidades solicitaram ao CNE através de uma carta aberta a realização de audiências públicas para que a academia, as associações na área de Engenharia e o Sistema CREA/CONFEA possam aperfeiçoar a proposta.

 

Proposta de novas diretrizes curriculares para as graduações de Engenharia preocupa entidade

 

CNE marca audiência pública para debater as Diretrizes Curriculares da Engenharia

 

ANE e Clube de Engenharia pedem revisão das Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos de graduação em Engenharia