Reitor da USP aponta caminhos para a formação do futuro engenheiro

Vahan Agopyan defende a interação internacional, a flexibilização dos cursos e a interação com a sociedade na como pontos importantes na formação dos engenheiros

A flexibilização dos currículos, a educação continuada e a multidisciplinaridade foram apontadas pelo reitor da Universidade de São Paulo (USP), o Acadêmico Vahan Agopyan, como caminhos para a formação de profissionais aptos para lidar com um futuro ainda desconhecido. A análise foi apresentada durante a palestra “O Ensino da Engenharia”, que ele proferiu no dia 19 de junho, na PUC-Rio.  Na abertura, o presidente da ANE, Francis Bogossian, destacou a importância do tema que tem merecido atenção especial da Academia que formou um grupo para debater o assunto.

Em sua palestra, o reitor Vahan Agopyan expôs um histórico do ensino da engenharia, as mudanças recentes, abordou a expansão dos cursos, relatou as iniciativas da USP, defendeu a interdisciplinaridade de cursos e colocou questões que desafiam não só a formação do engenheiro, mas praticamente a de todos os profissionais. “Hoje, nenhuma escola de engenharia tem a certeza de como formar seus profissionais e esse não é um problema exclusivo da engenharia”, disse Vahan Agopyan, que iniciou sua apresentação traçando a linha do tempo do ensino da engenharia.

Ao relembrar a trajetória histórica da engenharia no Brasil, Vahan Agopyan disse que a criação da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, em 1874, pode ser considerada como um marco na consolidação do ensino de engenharia não militar no País. Ele destacou ainda que até 1946, o Brasil tinha apenas 15 instituições de ensino de engenharia e hoje são quase 500, com oferta de mais de seis mil cursos. “Mas essa não é uma crítica, pois ainda temos menos alunos do que deveríamos ter. Hoje, apenas 12% de nossos formandos são engenheiros”, explicou.

Currículos diferentes

Ao falar das transformações do ensino da engenharia, Vahan Agopyan lembrou que no início ele era focado no conhecimento empírico; no final do século XIX e início do século XX, passou ser centrado no desenvolvimento das ciências da engenharia e na aplicação do conhecimento científico. “A mudança foi muito radical e os engenheiros sentiram”, lembrou o reitor Vahan Agopyan. “Essa evolução mudou totalmente o ensino de engenharia, então não é atípico em uma boa escola ter dois currículos. O aluno entra com um currículo, passados cinco anos, o currículo sofre mudanças radicais e os novos alunos têm uma grade diferente daqueles que estão no quarto, quinto período”, explicou.

Chegando ao final do século XX, Agopyan lembrou que a evolução tecnológica e a disponibilidade de novas ferramentas de trabalho impactaram o ensino da engenharia e um novo formato passou a vigorar, com base em um sólido conhecimento de tecnologia e na flexibilização dos currículos. “No início, formávamos engenheiros com extrema especialização. No final do século XX veio a flexibilização dos currículos e formávamos engenheiros com uma base sólida em ciência pura, ciência aplicada e engenharia; A partir de 1980 surgiu o engenheiro com um forte viés em Economia e Finanças e mais recentemente algumas instituições enfatizaram na formação das relações sociais, industriais e na Engenharia, com o objetivo de dar uma visão mais humana ao profissional”, explicou.

Formar de líderes

Ao abordar a formação do profissional do século XXI, o reitor destacou que as exigências para o profissional mudaram. De acordo com ele, agora é preciso ser um líder, ter conhecimento, capacidade de comunicação, de supervisão, possuir habilidade para trabalhar em equipes multidisciplinares e ter disposição para trabalhar com foco na sustentabilidade e na inovação.

“Moldar um curso que atenda essas necessidades é o desafio. Algumas grandes universidades, há cerca de oito anos, entenderam que a função da escola de engenharia não seria apenas formar bons profissionais, mas formar líderes. O engenheiro é um profissional que conhece Matemática profundamente e é capacitado para tomar decisões na incerteza. Nas escolas de engenharia o jovem pode até entrar com facilidade, mas sair é difícil. Por isso é um profissional requisitado em várias áreas, mas essas qualidades não são suficientes.”

Diante das questões levantadas, Vahan Agopyan acredita que o caminho para a formação do profissional passa pela flexibilidade curricular, pelo estímulo ao ambiente internacional de ensino, pelo trabalho com grupos multidisciplinares e pela interação com a sociedade, entre outros pontos. “Não tenho as respostas, mas o que consigo fazer na Escola Politécnica da USP é incentivar meus colegas a seguirem essa linha. Na USP, a interação internacional, a flexibilização dos cursos e a interação com a sociedade são realidade. Ainda não consegui convencê-los a respeito da multidisciplinaridade”, disse, explicando que multidisciplinaridade seria a interação entre currículos de diferentes cursos. “Por que um aluno da engenharia não pode fazer uma disciplina em designer? Estamos prontos para lidar com essa realidade?”, indagou.

Mas, apesar das incertezas, Vahan Agopyan vê um futuro promissor para os engenheiros. “As possibilidades estão ampliando. A profissão tem novas oportunidades, no entanto, o perfil do profissional está mudando e os estudantes têm que acompanhar essas mudanças. Para os estudantes, as perspectivas são maravilhosas, já para nós, responsáveis pela formação, a necessidade de se adequar é urgente ou corremos o risco de formar um profissional já superado.”

A palestra fez parte do Ciclo de Palestras 2018 da Academia Nacional de Engenharia (ANE). A próxima está marcada para o dia 17 de julho: “Reflexões sobre o setor energético brasileiro – passado / situação atual / perspectivas futuras”, com o engenheiro Altino Ventura. Entre os Acadêmicos presentes na apresentação do reitor Vahan Agopyan estavam Acher Mossé, Alan Arthou, Carlos Passos Bezerril, Djenane Pamplona, Edival Ponciano, Flavio Miguez de Mello, Hans Weber, José Eduardo Moreira, Luiz Calôba e Pedro Magalhães Guimarães Ferreira, além de professores e estudantes.

Especialistas defendem aproximação entre universidades e empresas

Após a apresentação da palestra “O Ensino da Engenharia” de Vahan Agopyan, realizada no dia 19 de junho, o Acadêmico Alberto Sayão, professor da PUC-Rio, conduziu o debate sobre o tema. Participaram da mesa o presidente da ANE, Francis Bogossian, o Acadêmico Edson Watanabe, diretor da Coppe/UFRJ, o presidente do Crea-RJ, Luiz Antonio Consenza, o professor Pedricto Rocha e o professor Luis Fernando Campos Martha.

Francis Bogossian destacou a importância de convênios entre universidades e empresas para complementar a formação. “O professor não pode prescindir das empresas, assim como essas entidades não podem prescindir dos professores para fazer essa interação”, avaliou.

Em sua colocação, o diretor da Coppe/UFRJ, o Acadêmico Edson Watanabe afirmou que é preciso mudar a postura dos alunos e investir em programas de iniciação científica. “É preciso preparar pessoas capazes de transformar conhecimento em produto, em inovação, isso em todas as áreas. É preciso formar engenheiros que tenham vontade de mudar a economia, não podemos esperar a economia melhorar”, disse Watanabe, destacando que é necessário estimular a interdisciplinaridade.

Ao falar sobre o ensino da engenharia, o professor Luiz Fernando Martha criticou o excesso de conteúdos e a defasagem entre o que as empresas precisam e o que a faculdade ensina. “Precisamos urgentemente evoluir”, disse Luiz Fernando Martha, salientando também que as mudanças, apesar de necessárias, sofrem resistência de alguns grupos. “Isso dificulta, mas não pode impedir que elas ocorram”, concluiu.

Ao afirmar que é necessário discutir a formação dos engenheiros, o Presidente do Crea-RJ, Luiz Antonio Consenza, lembrou que a lei que regula o exercício da profissão é de 1966. “A lei é de uma época em praticamente só existia a Engenharia Civil. Muita coisa mudou e a lei permanece a mesma. Precisamos discutir essa legislação”, ressaltou.

O professor Pedricto Rocha destacou a inovação como aspecto fundamental na formação e lembrou que a defasagem tecnológica é o que mais contribui para o déficit de nossa balança comercial. “Ela está ligada ao desenvolvimento tecnológico ligado à inovação. Nosso índice de competitividade é muito baixo e esse é um problema sério”, lamentou, afirmando que é necessário encarar esse problema e criar políticas continuadas de incentivo à inovação.